Minha Língua          Você Viu?  

 

 

Uma resposta ao artigo Lições do futebol  de Cláudio Moura Castro

Carla Viana Coscarelli

15/07/2003

 

 

            Seria muito bom que o problema do Brasil fosse apenas o método usado na alfabetização, não é mesmo? Mudaríamos o método e o mundo ficaria cor de rosa.

            Em seu artigo, Lições do Futebol, o economista Cláudio Moura Castro defende a implantação do método fônico no Brasil, a exemplo do que, segundo ele, se faz nos países bem sucedidos na educação.

            Primeiramente, pergunto: podemos medir a educação de um país com base em uma prova de leitura (PISA)? Fui consultora da área de leitura do PISA de 1999 a 2002, fiz revisão da prova, coordenei a correção dela e participei da redação do relatório nacional do Pisa 2000. Conheço bem essa avaliação, seus propósitos e suas limitações. A prova de leitura do PISA busca verificar habilidades de leitura e não dados da educação de maneira global.

            Pergunto também: o mundo todo pode usar o mesmo método de alfabetização? Vale a pena esquecer as diferenças entre as línguas? O que é bom para a alfabetização de um aluno italiano ou brasileiro pode e deve ser transferido para o aluno francês ou oriental, sem problemas? Responder que sim, como faz CMC, é mostrar completo desconhecimento e falta de reflexão respeito das diferentes relações entre grafemas e fonemas manifestas nas diversas línguas usadas nesse nosso planeta.

            De acordo com esse autor,

Nos países com ortografias alfabéticas, há duas formas de ensinar a ler e escrever. Em primeiro lugar, há uma concepção fônica (parecida com o velho bê-á-bá), que considera indispensável ensinar de forma explícita a relação entre fonema (som) e grafema (o garrancho que representa uma letra). Em segundo lugar, há uma concepção ideovisual, que entrega textos ao aprendiz e espera que ele formule hipóteses e construa seu saber. Ou seja, o aluno recebe a frase inteira e vai tentando tirar conclusões acerca do que significa e de como é a engenharia de transformar grafemas em fonemas.”

 

            Há nesse trecho alguns equívocos e algumas supersimplificações que acabam por trazer uma visão distorcida dos fatos.

            Uma delas é dizer que “há duas formas de ensinar a ler e escrever”. Na realidade, temos muitas outras. Se considerarmos todos os métodos híbridos e construtivistas, não podemos dizer que há duas maneiras de alfabetizar.

A definição dos métodos mencionados nesse trecho, além de simplória, aponta uma dicotomia entre os dois métodos, como se um em nada se relacionasse com o outro.

            Sabemos, no entanto, que são duas formas diferentes de caminhar em busca de um objetivo comum. Conforme esse trecho, parece que basta apresentar aos alunos as relações entre fonemas e grafemas que eles estarão alfabetizados. Esqueceu-se o autor que, em sua grande maioria, as relações entre sons e letras não são biunívocas, ou seja, não é uma relação de um para um, mas de muitos para muitos outros. Pensemos bem quantos sons tem a letra A em uma palavras comobanana”. São três ocorrências da mesma letra para três sons diferentes. Não vou nem mencionar o caso do X, do R, do S, do L, dos dígrafos (como nh, lh) e muitos outros.

            Quanto ao método global ou de concepção ideovisual, o autor deixa a entender que textos são jogados nos alunos que têm de fazer das tripas coração para construir, por sua conta e risco, o sentido (e nessa sua fala podemos perceber claramente qual a direção argumentativa desse autor).

            É claro que não é bem assim que as coisas acontecem. Os alunos recebem revistas, jornais, textos contextualizados de diversos gêneros e usados em diversas situações comunicativas e a partir deles, começam a construir sentidos possíveis. É importante lembrar, o que o autor se esqueceu de dizer, ou seja, que em qualquer método, estão incluidas estratégias de decodificação e decifração, isto é, o aluno para se tornar leitor, precisa conhecer e dominar recursos lingüísticos de diversas naturezas (grafofônicos, morfológicos, sintáticos, semânticos, discursivos), a fim de construir sentidos para os textos que vai ler.

            Os métodos globais, priorizam, num primeiro momento, a construção do sentido do texto e sua função sócio-comunicativa para, aos poucos, chegarem aos elementos lingüísticos que compõem o texto. Os métodos fônicos, por sua vez, chamam atenção, num primeiro momento, para os elementos grafofônicos como letras e sílabas, para a partir deles irem chegando ao texto.

            Como se pode ver, são dois movimentos que não se contrapõem necessariamente. O que acaba acontecendo, na verdade, na prática das salas de aula, é a mistura desses dois movimentos. Pois essa mescla é inevitável.

            Se imaginarmos a aplicação de um método fônico “puro”, sabemos que, ao sair da sala o aluno se depara com outdoors, revistas, jornais, panfletos, placas, bilhetes, cartas, músicas, e mais uma infinidade de outros textos que circulam o tempo todo no nosso mundo letrado.

            Sabemos que, uma vez dominados os recursos básicos da leitura e da escrita, ficamos o resto de nossas vidas aprendendo a ler e a escrever, a dominar cada vez mais os recursos da escrita e estratégias da leitura. Esses processos não se encerram na alfabetização.

            Uma vez dominados os recursos básicos da leitura e da escrita, não importa mais em que método fomos alfabetizados, mas que concepção de texto, de leitura, de escrita, de aprendizagem, a escola está nos ajudando a desenvolver.

 

 

Comentando algumas falas de um e-mail de CMC:

 

A alfabetização não é apenaso domínio de uma ferramenta de trabalho que é a leitura" (CMC). Ela é também o domínio da produção de textos. Ela é, ou deveria ser, a busca do letramento, que envolve muito mais do que simplesmente as habilidades básicas envolvidas no ato de ler e de escrever.

 

Quanto ao método de alfabetização, não podemos defender o uso de um método para o mundo todo. "Use-se o método que a experiência controlada indicar que funciona melhor"(CMC): essa é uma fala sem reflexão e sem comprovação empírica, pois não há, na literatura especializada, experimentos que mostrem diferença significativa do método de alfabetização no desempenho escolar dos sujeitos ao longo dos anos de escolarização deles.

 

Sei que temos muito o que aprender com outros países, mas não podemos jogar fora toda a nossa experiência e as nossas inúmeras pesquisas teóricas e aplicadas. Se os sistemas de escrita são diferentes, por que vamos copiar de outras culturas que lidam com outro sistema de escrita? Isso faz sentido?

 

Sabemos que o método fônico não é o mais usado atualmente no mundo e não é o mais usado nos países de primeiro mundo. Então, porque temos de usar o método fônico? porque um economista acredita nele por razões pessoais?

Muitas escolas no Brasil ainda usam o método fônico, e porque os alunos delas não se saem melhor do que os das outras escolas? O problema da educação (ou do letramento) no Brasil não é o método de alfabetização usado nas nossas escolas. Infelizmente.

 

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