Pessoal,
Antes de comentar as reflexões que vocês fizeram, gostaria de pedir que lessem o texto da Ana Elisa Ribeiro, que saiu no Estado de Minas, no último sábado.
Ele pode nos ajudar a colocar o hipertexto no seu devido lugar!
Espero os comentários, críticas, questionamentos,
etc. de vocês.
Carla
Por que ler em qualquer lugar (inclusive
na tela do computador)
para
profa Carla Viana Coscarelli (UFMG) e prof. Milton do Nascimento (PUC-Minas)
Em
1996 travei contato com o computador. Até ali havia conseguido trabalhar sem ele. Não sentia, até então, qualquer necessidade de empregá-lo em meus afazeres cotidianos e nem pensava que ele fosse se tornar objeto íntimo em tão pouco tempo.
Sempre ouvira falar da máquina por meio de um tio que é analista de sistemas. Porém, para mim, somente alguém com uma profissão como a dele necessitava mesmo do computador. Ter um PC (personal computer) em casa era luxo. E a máquina de escrever resolvia bem quando um trabalho precisava ser feito com mais capricho.
De 1996 para cá muita coisa mudou e hoje não vivo sem um computador. Tudo o que faço no trabalho depende dele, mesmo não sendo eu uma analista de sistemas, e grande parte do contato que tenho com amigos e parceiros de trabalho depende da Internet para acontecer. Até mesmo fatos importantes de minha vida não teriam ocorrido sem a máquina.
Além do efeito utilitário que o computador e os editores de texto ganharam, também algo modificou-se em meu vocabulário. Ao menos uma palavra passou a ser empregada amiúde: hipertexto. Navegando na Internet, num mar impreciso de informações, descobri a hipertextualidade e decidi então estudá-la.
Hipertexto
Segundo o filósofo Pierre Lévy, em seu livro As tecnologias da inteligência, a palavra hipertexto foi cunhada pelo matemático norte-americano Theodore Nelson, na década de 1940. A princípio, referia-se a sistemas de dados interconectados por links.
Na Internet, muitos textos são construídos como se fossem páginas empilhadas umas sobre as outras e alguns termos ou títulos em azul (cor padronizada para indicar link) podem ser acessados e levam o leitor a outra página, provavelmente referente àquele item ou assunto.
Para Lévy, “Theodore Nelson
inventou o termo hipertexto para exprimir a idéia da escrita/leitura não-linear em um sistema de informática”, o que explica o emprego da palavra
predominantemente para o ambiente virtual.
História
Embora o hipertexto funcione bem na Internet, a história do livro e do impresso confirma a idéia de que ele não é, ao contrário do que parece, novidade. Navegar por um texto e passar de um link a outro são possibilidades que outros suportes já davam.
Lyons & Leahy, no livro A palavra impressa, sugerem o retorno à história para que percursos como o do hipertexto sejam esclarecidos:
Existem paralelos interessantes entre algumas das reações à revolução eletrônica e as reações à invenção da imprensa, ocorrida há quinhentos anos. Observam-se as mesmas previsões extravagantes sobre o poder da tecnologia de mudar o mundo e de trazer um mundo melhor para todos. Nos temores contemporâneos em relação ao acesso ilimitado a sites perigosos da Internet, a às dificuldades enfrentadas por governos de diversos países no policiamento da distribuição da informação, ouve-se o eco do pânico causado pela invenção da imprensa. Historiadores da imprensa já ouviram essa história antes. Se queremos distinguir com a devida clareza o velho do novo, se queremos medir com precisão o significado da “revolução da informação”, então uma perspectiva histórica é indispensável. (1999)
Revisitando a
história do impresso chega-se à conclusão de que antigos manuscritos, livros impressos, além de jornais e revistas, são formas de hipertexto com as quais estamos bastante habituados.
Pensando assim, o susto de lidar com algo antigo que tem nome novo deixa de acontecer, principalmente se soubermos
que cada tecnologia, antes de excluir processos de outra, pode aproveitar características da anterior, o que dá ao usuário alguma sensação de familiaridade e acesso.
O hipertexto tem história recente, mas possui fundamentos antigos nas enciclopédias, nas colecções e nas bases de dados. As dificuldades semânticas de acesso aos documentos e aos conhecimentos não desapareceram, mas foram, em parte, contornadas, por meio de novos dispositivos pragmáticos. (Laufer & Scavetta,
199?)
Simulação
Segundo Lévy (1993),
o informata Vannevar Bush, em 1945, foi o primeiro a conceber a idéia de hipertexto como uma rede
interconectada de dados e informações e, para muito além disso, foi o
primeiro a desconfiar de que a cognição humana não funciona de maneira
hierarquizada e seqüencial. Para ele o pensamento e a memória humanos funcionavam
de maneira múltipla, multimídia (som, cheiro, voz, imagem, palavra),
interconectada e de fácil acesso.
Sabendo disso,
é possível perceber que Bush tenha
compreendido um processo mental humano (que as máquinas pretendem simular), ao qual Nelson deu um nome e que passou a denominar o produto ao qual chamamos hoje hipertexto, qual seja, um texto interligado por links, que, na verdade, é uma
simulação do que a mente humana faz naturalmente, quando lê ou conversa, quando associa informações e sensações.
Tecnicamente, um hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas, imagens, gráficos ou partes de gráficos, seqüências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertextos. Os itens de informação não são ligados linearmente, como em uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas conexões em estrela, de modo reticular. Navegar em um hipertexto significa portanto desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complicada quanto possível. Porque cada nó pode, por sua vez, conter uma rede inteira. (ibidLévy, 1993)
O texto escrito, seja ele produzido com links ou não, é um fenômeno que ativa hipertextualidade no leitor, não sendo verdadeiro pensar que apenas textos estruturados formalmente como redes sejam hipertextos. Muito menos adequado é pensar que os hipertextos habitam apenas as telas de computador, quando circulam na sociedade há muito:
O jornal ou revista, refugos da impressão bem como da biblioteca moderna, são particularmente
bem-adaptados a uma atitude de atenção flutuante, ou de interesse potencial em relação à informação. Não se trata de caçar ou de perseguir uma informação particular, mas de recolher coisas aqui e ali sem ter uma idéia preconcebida. O verbo to browse (“recolher”, mas também “dar uma olhada”) é empregado em inglês para designar o procedimento curioso de quem navega em um hipertexto. No território quadriculado do livro ou da biblioteca, precisamos de mediações e mapas como o índice, o sumário ou o fichário. Ao contrário, o leitor do jornal realiza diretamente uma navegação a olho nu. As manchetes chamam a atenção dando uma primeira idéia, pinçam-se aqui e ali algumas frases, uma foto, e depois, de repente, é isso, um artigo fisga nossa atenção, encontramos algo que nos atrai... Só podemos nos dar conta realmente do quanto a interface de um jornal ou de uma revista se encontra aperfeiçoada quando tentamos encontrar o mesmo desembaraço num sobrevôo usando a tela e o teclado. O jornal encontra-se todo em open field, já quase inteiramente desdobrado. A interface informática, por outro lado, nos coloca diante de um pacote terrivelmente redobrado, com pouquíssima superfície que seja diretamente acessível em um mesmo instante. A manipulação deve então substituir o sobrevôo. (Lévy, 1998)
Segundo Lévy (1998), revistas e jornais são hipertextos em que o leitor pode navegar a partir de uma primeira página que oferece indicações que o guiam para a matéria de seu interesse. Índices e sumários oferecem maneiras mais eficientes e ágeis de chegar a determinado tema ou texto, sendo que o leitor deve desenvolver aptidão em promover buscas a partir do sistema que encontra.
Hipertexto na tela do cinema
Transferindo então esta reflexão para as telas de cinema, é interessante pensar na estrutura da narrativa do filme Cidade de Deus. Trata-se de uma narração do personagem principal em que ele não conta de forma linear a história de Zé Pequeno e seus companheiros, mas sim escolhe pontos da história de cada um e quando a narrativa de uma biografia se cruza com a de outro personagem, faz-se um link, inclusive representado por uma espécie de simulação de fotografia na tela, e desse nó parte-se para a narração da história de outro personagem, e assim todas elas vão se cruzando, costurando uma grande teia.
Em Cidade de Deus, texto, imagem e som representam o produto de hipertextualidade que a narrativa daquela história contém. Quando as vidas dos personagens se cruzam, numa rede de conexões natural (afinal, as vidas de todos nós se cruzam com as de outras pessoas, fazendo links às vezes importantes, às vezes não), o diretor optou por fazer cortes e acessar nós, com todos os recursos do cinema, levando o espectador a navegar pela narrativa multimídia, simulando a hipertextualidade mental que o mesmo espectador faria caso assistisse a um filme estruturado de maneira mais linear.
Por que não temer?
Seja na tela do cinema, seja no computador, seja nos jornais, não há o que temer quando o assunto é hipertexto. Os recursos mudam, assim como as velocidades, mas o leitor, animal exploratório e hipertextual, navegará pelas redes de links, sejam eles impressos, eletrônicos ou mentais.