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Uma tentativa de definir INFOPOESIA
Débora Vieira e Carla Batista
"utilização simultânea de signos verbais e não verbais, para, através de instrumentos informáticos, criar estruturas poemáticas de alta complexidade visual, complexidade essa que também se manifesta simultaneamente no nível semântico." (Castro 1998: 9)
A dificuldade de se definir “Infopoesia” perpassa a
complexidade prévia de se estabelecer um conceito para a própria poesia. Portanto, a fim de não prolongarmos excessiva e inutilmente a discussão, partiremos do
pressuposto de que todos aqui, por especialistas no assunto que são, já que trabalham com o ensino de tal gênero textual, já tenham construído para si um conceito básico do que é poesia ou, pelo menos, do que não é poesia...
A partir dessas colocações, entendemos que a Infopoesia trata-se
da poesia construída com uma maior possibilidade de recursos enunciativos, ou seja, na construção do seu texto, ao autor poderá utilizar-se de recursos que vão além daqueles oferecidos pelo papel, uma vez que o computador oferece inúmeros expedientes áudio-visuais que inevitavelmente serão aproveitados pelo infopoeta para que o texto alcance cada vez mais novas dimensões semânticas, sintáticas, sonoras, visuais e, obviamente, poéticas... Para entender melhor é só imaginar, por exemplo, uma espécie de poesia cujo processo de produção se dá na frente do leitor, como se fosse um vídeo, no qual os versos, as cores ou as imagens vão surgindo na tela do computador gradualmente, acompanhadas, muitas vezes de sons.
Assim, o “infopoeta” “É o poeta da palavra se tornando operador virtual da palavra”, pois "pode lançar mão de recursos que só o computador possibilita, como a estrutura em aberto do poema, a navegação não-linear ao longo do texto e a participação interativa do leitor.” (Machado 1994: 16). Em decorrência disso, verificamos que a informática, considerada por muitos como um meio de comunicação extremamente “impessoal”, tem, ironicamente,
contribuído para a renovação de uma arte de relevante significação na história da humanidade: a arte poética. Trata-se
do uso
artístico
da tecnologia:
"as tecnologias
avançadas não
se limitam a proporcionar
a reprodutibilidade da obra
criada,
mas
facultam a criação
de obras
que
sem
essas tecnologias
não
poderiam ser
criadas" (Castro 1988: 51).
A presença da palavra poética no contexto digital pode ser analisada sob vários aspectos: na presença e na ausência da própria palavra, na sua legibilidade ou ilegibilidade, na sua relação com a imagem infográfica, no produto resultante da junção intencional da palavra e da imagem, no predomínio tanto da imagem como da palavra, e assim por diante.
Igualmente é possível analisar um conjunto de palavras, fragmentos de frases e/ou versos, ou até versos, já não mais sob o ponto de vista linear da poesia rimada e metrificada, mas já como espacializada,
hipertextualizada, com inúmeros "links" também visuais, tridimensionais, etc.:
"... frases
de montagem.
Série
de tomadas.
A simples
combinação
de dois ou três pormenores do tipo material produz uma representação perfeitamente acabada de outra espécie - psicológica." (Eisenstein 1986: 170).
Com
relação
à visualização
e à distribuição
do poema,
estas se dão inevitavelmente através
de meios digitais, como disquetes e CD-ROMs, ou então deve ser acessado
eletronicamente, por intermédio das redes telemáticas (Internet, por exemplo).
Historicamente, as primeiras tentativas de aliar a construção poética aos novos recursos tecnológicos surgiram, nos países de língua portuguesa, com o movimento literário intitulado Concretismo, a partir de meados dos anos 50, graças à intervenção do grupo brasileiro Noigandres (Décio
Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos), criador da poesia concreta, e nos anos 60, com o surgimento do grupo português PO.EX, que abrangia cerca de uma dezena de poetas reunidos ao redor de Melo e Castro.
Dessa época para cá, a idéia de uma poesia de feição radicalmente contemporânea, capaz de lançar mão dos novos recursos escriturais, não cessa de ganhar adeptos.
Podemos
citar, como exemplos de “infopoetas” os artistas Arnaldo Antunes, Augusto de Campos e o poeta português Ernesto M. de Melo e
Castro, dentre outros. É de autoria deste último a infopoesia que segue abaixo. A análise que a acompanha foi feita por Jorge
Luiz Antonio, doutorando
em ciências semióticas pela PUC SP.
HOUSE (C) ASA
House (C) Asa mostra certa arquitetura entre retangular e oval (uma espécie de abóbada de letras). As palavras se repetem em letras, e se mostram como uma equilibrada passagem da poesia concreta para a poesia informática.
É a poesia visual, espacial que adentra os limites de um software. Enquanto o poeta verbal decidia o uso da folha de papel e os recursos de sua máquina de escrever (ou até do desenho à mão), aqui o infopoeta experimenta os recursos do Adobe Photoshop e cria um outro espaço.
A poesia digital surge num outro espaço e depende dele para se articular como linguagem. O espaço tridimensional e a temporalidade linear são substituídos pela tridimensionalidade e a não-linearidade, que institui movimento e textura na palavra-imagem virtual.
Há um contraste significante em uma espécie de tom cinza (o cinza como mistura de cores), sobre qual há palavras em cor amarela. Uma série de caracteres não legíveis está cunhada (baixo relevo) no fundo cinza, como se ele se mostrasse de plástico ou borracha (efeito emboss), da mesma forma que as letras house e (c)asa se destacam em alto relevo.
Enquanto três repetições de house mostram um espaço retangular e estático, a palavra asa faz um "movimento" através da repetição e da forma circular (efeito Spherize), cujo significado se modifica com a inclusão, no começo e no centro da seqüência, da letra C.
O que permanece no texto digital que pode ainda ser chamado de poesia? O estranhamento (título + palavras + imagens = significado diferente das partes, como é a montagem eisensteiniana), plurissignificação, predomínio da função infopoética da linguagem?
Bibliografia utilizada/sugerida para quem se interessar pelo assunto:
ANTÔNIO, Jorge Luiz
(2001). Sobre a poesia digital. Artigo presente no site http://www.aartedapalavra.com.br/13ensaiosobreapoesiadigital.htm, consultado em
26/05/2003.
CASTRO, E. M. de Melo e
(1973). O próprio poético: ensaio de revisão da poesia portuguesa atual. SP, Quíron. (Logos. Série Crítica e história literária 2).
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(1977). In-novar. Lisboa, Plátano. (Temas Portugueses 50).
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(1984). Literatura portuguesa de invenção. SP, Difel.
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(1988). Poética dos meios e arte high tech. Lisboa, Vega.
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(1990). Trans(a)parências: poesia - I: 1950-1990. 1.ed. Sintra, Tertúlia.
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(1993). O fim visual do século XX e outros textos críticos. Org. Nádia Battella
Gotlib. SP, EDUSP.
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(1994). Visão visual: 1961-1993. RJ, Francisco Alves.
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(1996). Finitos mais