Viciados em F7? Nossa resposta ao JB (27/09/2001)
Carla
Viana Coscarelli
Else
Martins
(BH, out de 2001)
A informática entrou em nossa vida - isso não tem retorno - e sua influência
na escrita é inevitável. De pouco adianta torcer o nariz ou fechar os olhos
para as conseqüências que o uso do teclado e dos programas de texto provocam na
escrita das pessoas. Necessário se faz estudar essas modificações e, sem
pré-conceitos, analisar até onde isso é bom ou não. Por mais que usemos um
chat, isso não significa que vamos escrever como prescreve esse gênero, em
qualquer situação. Todo mundo conversa ao telefone, mas nem por isso começamos
nossas conversas com Alô!.
A crítica que mais se faz ao uso dos corretores de texto e das
comunicações sincrônicas (chats) e assíncronas (e-mail) é o fato de que eles
levam o indivíduo a escrever errado. No primeiro caso, inclusive, dizem até que
“vicia”! É preciso entender que alguns aspectos da escrita merecem mais atenção
do que ortografia e separação de sílabas, entre outras questões menores. Mas
então, disparariam irritados aqueles para quem saber Português é ter um bom
domínio da ortografia e da sintaxe, devemos deixar pra lá erros ortográficos?
Língua não se resume a ortografia. Há muito além disso, a sintaxe, a semântica,
a textualidade, os fatores pragmáticos, a discursividade, e ninguém discute
isso na imprensa. A ortografia é sempre a grande vedete. Toda reportagem que
aparece na imprensa mostra sempre faixas, cartazes e placas com erros de
ortografia e palavras sem acentos e, quando muito, com problemas de
concordância ou alguma regência duvidosa.
O que propomos aqui, é a desnecessidade de perder tempo com essas
questões. Por que não deixar a ortografia por conta do corretor ortográfico?
Quanto menos tivermos de nos preocupar com isso no momento da criação, melhor,
pois sobrará tempo e recursos cognitivos para as atividades de planejamento e
organização das idéias no texto; para escolher melhor os recursos lingüísticos
a serem usados e as estratégias textuais que melhor seduzirão o leitor.
Fala-se tanto em otimização. Por que não aceitar a otimização também dos
recursos de produção de um texto? Melhor que o produtor se ocupe com o sentido,
com a coerência e com o estilo do que com banais questões ortográficas, que
apesar dos Pasquales da vida, definitivamente, reafirmamos, não são aspectos
fundamentais da língua. São necessários, mas mecânicos e há recursos para
melhorar nosso desempenho nesse sentido.
O
corretor gramatical, quanto mais aperfeiçoado for , de grande ajuda será no
momento da revisão dos aspectos formais do texto. Não há programa de computador
que consiga substituir as escolhas semânticas e estruturas frasais de cada
produtor. As questões sintáticas são observadas com algum cuidado por quem
escreve e um alerta de uma gramática que trabalhe de forma simultânea à
produção do texto só faz o produtor ficar mais atento ao processo de criação.
Apareceu o risquinho verde no texto e, imediatamente, vai-se verificar o que
está acontecendo, que tipo de correção é sugerida. Apareceu o risquinho
vermelho e vai-se verificar o erro ortográfico cometido. Pelo fato de seguir
normas rígidas, o recurso de correção sintática e ortográfica não exclui a
participação do usuário e, muitas vezes, leva-o a pensar no desvio cometido,
tornando o ato de produção de texto em computador uma contínua atividade
metalingüística, em que o produtor estará freqüentemente se defrontando com
decisões a tomar: onde errei? Que engano cometi? Essa repetição de palavras é
legítima em função de minha estrutura frasal? Por que essa concordância está em
destaque? Aqui cabe a crase? E aí nos perguntamos, como isso pode ser ruim, se
para se chegar a um bom produto final foi preciso ler e reler o que se
produziu? Um programa de computador alerta o produtor para algumas estruturas a
serem revisadas, mas nunca, nunca mesmo, trabalhará no lugar do indivíduo que
se dispõe a escrever.
Tudo
evolui , mas parece que alguns desejam que a produção de texto permaneça na
pré-história da escrita, estática, fiel ao uso da primeira tecnologia : os
eternos papel e lápis. Entretanto, por mais que esses desejos mastodônticos se
manifestem é impossível parar. A separação de sílabas, que já foi muito usada
para possibilitar a formatação justificada do texto, não é mais usada, nem nos
textos digitados, nem nos escritos à mão. Hoje basta um clique e o texto é
formatado do jeito que o autor quiser e para isso nenhuma palavra precisa ser
separada em sílabas.
Por que ver isso como malefício? Há gente por aí falando que esses
recursos viciam o usuário. Há quem resista em usar o corretor ortográfico
argumentando que ele aliena, faz com que as pessoas deixem de usar o dicionário
e ignorem “a possibilidade de aprender a grafia correta” (JB 27/09/2001),
que ele torna os escritores “descuidados” e negligentes. Outros pregam que se
deve usar o dicionário impresso para tirar as dúvidas. Precisamos lembrar que o
dicionário e o corretor ortográfico têm funções diferentes. O dicionário (que
pode ser eletrônico para economizar tempo na busca dos verbetes) serve para
descobrir o significado de palavras desconhecidas, entre outros usos. Já o
corretor serve para nos ajudar a escrever conforme a ortografia padrão exige, o
que economiza um tempo enorme e torna o produtor mais seguro de que há recursos
que vão alertá-lo, caso algum desvio da norma culta – se for o desejo dele usar
no texto esse padrão – seja cometido.
Todo mundo que digita/escreve um texto sabe que “não” tem til. Deixar o
corretor fazer esse serviço braçal não é crime nenhum, e se não souber, por
exemplo que uma palavra é com g ou j, será uma boa hora para aprender com o
corretor ortográfico, hora de tirar dúvida – e não desaprender, como acreditam
alguns. Ao usuário da língua e dos programas, cabe decidir alguns casos em que
há duas grafias para o mesmo som, mas com significados diferentes (homófonos)
como o que acontece com conserto e concerto. Cabe também decidir se uma
repetição do tipo “ se se quiser ...” é legítima ou não. Usar o corretor
ortográfico não é atestado de ignorância e incompetência lingüística, ao
contrário, pode ser prova de bom índice de letramento, pois indica, ou pelo menos
significa, que a pessoa tem o hábito da escrita e domina recursos básicos e
úteis dos editores de texto. E que ele seja usado mil vezes se for preciso.
Pior é não usá-lo.
Outro dia, no Jornal do Brasil (Viciados em F7) afirmava-se sobre
o uso do corretor ortográfico que um rapaz “criou juízo e hoje é um
ex-dependente”. “Agora”, dizia o artigo, “ele tira suas dúvidas no dicionário.”
Argumentava a articuladora, em defesa da atitude do rapaz, que “o mercado de
trabalho exige que se escreva corretamente”. A atitude desse rapaz , no artigo
lido, é apontada como uma vantagem. Será? Imaginemos o pobre coitado às voltas
com uma dessas dúvidas que nos acometem freqüentemente, por exemplo, como
escrever berinjela: beringela ou berinjela. Lá vai nosso rapaz abrir um
dicionário e mecanicamente procurar a grafia correta: abre o livro, procura a
letra B, localiza o BE, passa folha, passa folha, localiza o BER, acha o BERI,
finalmente o BERIN, desliza o dedo até a palavra procurada, constata a forma
correta, olha para seu monitor e digita a danada da berinjela correta. Será que
esse rapaz está no caminho certo? Será que o fato dele ter usado o dicionário
fará com que da próxima vez que ele for escrever essa mesma palavra a forma de
grafá-la estará, indelevelmente, marcada em seu cérebro, pelo simples fato de
haver usado um dicionário uma vez a fim de localizá-la? Ou a dúvida persistirá
e lá vai dicionário novamente?
O corretor é, ironicamente, visto como salvação de quem não sabe
português, mas existem outras formas de ver o uso dele: uma já dissemos -
língua não é só ortografia – outra é que a ortografia é uma das poucas coisas
na língua que não aceita variação; berinjela é com j e não se discute. Por
isso, é fácil desenvolver um programa para verificar a ortografia e seu uso é
uma questão de automatismo e não de raciocínio.
Deixar de usar o corretor, definitivamente, está longe de ser uma
atitude inteligente, produtiva e vantajosa. Para quem quer entrar no mercado de
trabalho, o domínio e bom uso das tecnologias, sobretudo da informática, é um
requisito extremamente valorizado. Que diferença faz tirar dúvidas no
dicionário de papel ou no eletrônico? Muita. Enquanto o rapaz do nosso exemplo
está a consultar um dicionário, o colega ao lado já analisou e aceitou ou não a
correção proposta e produziu infinitamente mais. A consulta ao eletrônico é
muito mais rápida e o tempo de consulta economizado pode ser melhor aproveitado
pelo usuário.
Será que, em vez de criticar o computador e classificá-lo como vilão
contemporâneo, não seria melhor aceitarmos de vez a informática em nossas
vidas? É tempo de repensar essa questão sem resistência e sem medo das mudanças
que são inevitáveis. A escrita no computador criará hábitos diferentes.
Recursos como o uso da tecla F7 ( que verifica incorreções de ortografia e
sintaxe ), do Control Z (que desfaz o que se acabou de escrever ) agilizam a
escrita e dão mais segurança ao usuário. A possibilidade de formatações as mais
diversas, sejam elas inovadoras ou formais, levarão inevitavelmente a um texto
que exigirá dos leitores o domínio desses recursos e as prováveis intenções que
eles guardam .Quando as histórias em quadrinho invadiram o mercado muita gente
não sabia como lê-las, que direção seguir, como associar o texto verbal com o
não-verbal, como interpretar as onomatopéias, etc. Toda nova tecnologia que
mexe com hábitos instalados causa insegurança e a primeira tendência é ver nela
apenas mal. Entretanto o texto produzido em computador vai aos poucos
instalando um texto novo,criativo, ágil e que exige um leitor que domine os
recursos de produção desse texto, para melhor entendê-lo. O novo texto utiliza
diferentes tipos de letras, negritos, itálicos, cores, diferentes tamanhos de
fontes, imagens, ícones, links – o que possibilita que de uma leitura se pule
para outra numa verdadeira rede de textos, o que se não é novo, é mais evidente
e rápido.
Óbvio
é que o uso do teclado modifica nosso controle motor fino. O homem que um dia
comeu com as mãos sentiu dificuldade ao usar garfo e faca para se alimentar.
Mas qual o problema? Adaptou-se. Evoluiu. Quem usa o teclado com constância
sente, sim, certa dificuldade ao utilizar a caneta, a letra já não é a mesma.
Mas e daí? A letra bonita já foi muito valorizada, hoje ela precisa ser
legível, letra bonita o computador tem muitas. Precisamos repensar a
necessidade de aprender a desenhar a letra cursiva, que até hoje representa um
marco na alfabetização, na maioria das escolas. Para que saber escrever com
letra cursiva? Quem define este padrão? Quem não conhece alguém que escreve
apenas com letra de forma? Isso limita de alguma forma a vida ou a produção
escrita desses indivíduos? Eles deixam de se expressar por escrito por causa
disso? Têm menos personalidade ou são piores profissionais em função dessa
característica? O uso dessa ou daquela letra embota o raciocínio de alguém ou
impede sua ascensão profissional? Reconhecer diferentes fontes é importante
para que sejamos capazes de ler qualquer texto. Cada vez mais associa-se a
intenção de um texto à fonte utilizada e isso não deve ser empecilho para o
leitor.
Um dia o homem expressou-se usando a escrita nas cavernas, depois veio a
pena, a caneta e o lápis, a máquina de escrever e hoje ele utiliza cada vez mais
o teclado do computador que faz muita falta para quem já se habituou ao seu
uso, ou seja, cada vez mais gente por aí, por ser ágil, confortável e
possibilitar a muitos um desempenho melhor, quando da produção de um texto,
apesar de não excluir o uso da velha tecnologia.
Assim a leitura e a escrita vão-se tornando mais complexas e não cabe
mais o discurso atrasado de que o computador e seus recursos atrapalham a
produção de textos. O computador estabelece novas exigências e facilidades e
não há por que negá-las ou recusá-las. É preciso entendê-las, estudá-las e
aperfeiçoá-las e que venham os textos dos novos tempos!