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Volta

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"Viciados em F7" e "Teclar ou escrever, eis a questão"

(Jornal do Brasil de 27/09/2001)

Viciados em F7

[27/SET/2001]

A tecla F7, para quem (ainda) não conhece, é o atalho para ativar o corretor ortográfico do Microsoft Word, o programa de edição de textos mais usado no mundo. Para quem se garante nos quesitos ortografia e gramática, o corretor automático é um chato que fica sublinhando, em verde ou vermelho (conforme o caso), nomes de pessoas, palavras que não estão no dicionário e erros que não existem - como segue regras rígidas, muitas vezes ele aponta como erro formas que na verdade são opcionais ou licenças poéticas.

Mas, para os usuários não tão craques em português, o corretor é a salvação, é aquele que impede que se entregue ao chefe um relatório cheio de erros ortográficos constrangedores. Basta apertar F7 e abre-se uma janelinha mágica, que vai apontando possíveis erros e oferecendo soluções.

Assim, formou-se uma verdadeira legião de viciados em F7. Indiferentes à discussão sobre qual é o melhor dicionário, eles dispensam cuidados ao digitar e não se preocupam com a ortografia. O relaxamento pode chegar ao ponto de a pessoa repetir o mesmo erro diversas vezes, ignorando a possibilidade de aprender a grafia correta. Foi o que percebeu, há três anos, a avó do então adolescente Leandro de Almeida Camargo. Dona Elza ditava um texto e alertava quando o rapaz cometia um erro. Mas ele reagia: ''Tudo bem, vó, o computador corrige depois''. Com esse argumento, o rapaz se permitiu digitar os mesmos erros várias vezes.

Então, criou juízo e hoje é um ex-dependente. Estudante de administração e estagiário do Banespa de Petrópolis, Leandro conta que tira suas dúvidas no dicionário e matriculou-se num curso de digitação. ''O mercado de trabalho exige que se escreva corretamente, e eu pretendo acompanhar o mercado'', explica.

Copyright © 1995, 2000, Jornal do Brasil. É proibida a reprodução
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http://www.jb.com.br/jb/papel/cadernos/internet/2001/09/26/jorinf20010926002.html

 Teclar ou escrever, eis a questão

Internautas importam para a escrita a mão o hibridismo dos códigos oral, escrito e iconográfico das conversas pela web

MARINA LEMLE

[27/SET/2001]

A mãe lê o bilhete na geladeira e acha engraçado, criativo. Dias depois, seu geniozinho do computador lhe apresenta um quatro em redação, logo ele, que sempre foi bom em tudo. Ao lado da nota, a professora explica: ''Isto não é internet, abreviações e desenhinhos não valem aqui''. De fato, a redação mais parecia uma transcrição de chat.

A influência do estilo web de escrever - ou melhor, de teclar - na escrita manual cotidiana é cada vez mais comum, principalmente entre os internautas jovens, que, com criatividade, misturam os códigos oral, escrito e icônico nas conversas por e-mail, salas de bate-papo e mensagens instantâneas (IRC, ICQ e similares). De tanto teclar, viciam-se nos ''atalhos'' dessa nova linguagem e passam a aplicá-los na escrita de uma forma geral, sem perceber que só funcionam bem em determinados tipos de mensagem, como bilhetes rápidos e cartões informais.

Segundo a professora de português Maria Elisa Curti, o uso do computador afetou nitidamente a escrita a mão dos seus alunos da oitava série de uma escola particular paulista. ''As redações estão cheias de abreviações, como vc (você), tb (também), d+ (demais), bjão e bjo (beijão, beijo). Eles esqueceram como separar sílabas, separam grupos como nh e ch e começam linhas com vírgulas. Até universitários apresentam esses sintomas'', revela a professora, que também leciona português para adultos.

O programador Patrick Givisiez conta que importou para a escrita a mão as risadas do tipo ''hehehe'' e os emoticons, aquelas carinhas que expressam sentimentos, como :-).

Caligrafia muda - Outra conseqüência que o hábito de escrever no micro pode trazer são mudanças na caligrafia. Muitos micreiros reclamam que não dominam mais o lápis e a caneta como antigamente e que suas letras estão ficando feias. O designer de interface Diego Zambrano, que trabalha em média dez horas por dia com computador, conta que teve uma perda sensível de qualidade da caligrafia. ''Sinto a minha caligrafia cada vez mais fraca, menos consistente. Muitas vezes não mantenho uma uniformidade no decorrer do texto'', atesta.

De acordo com o ortopedista Claudio Street de Aguiar, a falta de intimidade com a caneta é causada por uma dificuldade transitória de informação neurológica. ''A prática traz a habilidade de volta rapidamente. É como andar de bicicleta. A gente não esquece, só perde a prática'', explica. Segundo ele, sintomas como rigidez de articulações e perda de mobilidade também são transitórios. ''Mas quem se queixa de dor pode estar com uma lesão por esforço repetitivo (LER) provocada pelo uso excessivo do teclado'', pondera.

Enquanto uns ficam com a letra feia, outros capricham a ponto de adotar na escrita a mão fontes de computador. O uso de letra bastão é comum. ''Posso dizer que escrevo em fonte Arial, já que minha caligrafia é muito parecida com as letrinhas bonitinhas do Windows'', conta o designer e programador Luiz Eduardo Lins de Sousa.

Papel ainda tem seu espaço - Apesar da praticidade, muitos usuários de computador não abrem mão da dupla papel e caneta ou do trio papel, lápis e borracha para determinadas atividades. Diego Zambrano é um deles, pelo menos na hora de criar: ''Quando começo um projeto, prefiro fazer um rascunho, desenhar algumas idéias, riscar, apagar. Geralmente consigo externar mais rapidamente minhas idéias no papel''.

O publicitário Alexandre DAlbergaria gosta de começar seus artigos a mão e depois editá-los no computador. ''Com a mão eu exponho as idéias. No computador eu as organizo'', explica.

A professora Maria Elisa usa a caneta quando o texto pede muita elaboração e reflexão. ''Preciso ver a minha letra para me identificar. O movimento que se faz para escrever no computador é sempre o mesmo, e escrevendo com a mão não. É como um desenho. E eu adoro isso'', explica. Ela descobriu que os alunos também têm lá suas preferências: escrevem cartas pessoais a mão, porque fica mais bonito e pessoal.

Já Patrick Givisiez gosta de fazer contas matemáticas no papel. E só. ''Não me sinto mais tão à vontade de escrever em algo que não tenha teclas'', diz. O programador Fabiano Pereira completa: ''Não tenho paciência para escrever. Quando cometo um erro no papel, fico sempre imaginando ''ctrl + z'' (o comando no teclado para desfazer).

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